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voltarA porta giratória do calote: 86% dos novos negativados são reincidentes
O efeito bumerangue das dívidas atinge quem já estava no vermelho ou havia acabado de limpar o nome, revelando a fragilidade do mercado de crédito no país
A inadimplência no Brasil deixou de ser um evento imprevisto para se tornar um labirinto de difícil saída. Dados da CNDL e do SPC Brasil revelam que o sistema de crédito opera, hoje, sob a lógica de uma porta giratória: 86% dos novos negativados em fevereiro são rostos conhecidos dos cadastros de devedores. Trata-se de um ciclo de reincidência que expõe problemas profundos no orçamento das famílias.
O "Indicador Reincidência das Pessoas Físicas", da CNDL (Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas) e doSPC Brasil (Serviço de Proteção ao Crédito), revela que quase dois terços dos negativados (68,2%) já carregavam pendências anteriores.
Não são novos devedores, mas CPFs que estão apenas aprofundando o fosso financeiro ao acumularem os mesmos atrasos em novas operações de crédito.
O dado mais alarmante reside no tempo: a média entre uma negativação e outra é de apenas 73 dias. Na prática, isso significa que, após o primeiro calote, o consumidor não dispõe de sequer um trimestre de fôlego antes de sucumbir a um novo boleto para reincidir.
A miragem da recuperação
Para uma fatia considerável, a alegria e o alívio de "limpar o nome" são efêmeros. O estudo mostra que 18,2% dos negativados em fevereiro haviam conseguido sair da lista nos 12 meses anteriores.
Para esse grupo, a recuperação da saúde financeira foi uma miragem. E, infelizmente, a bola de neve de juros e o custo de vida voltaram a derrubar o planejamento doméstico.
Apenas 13,6% dos novos registros de fevereiro pertencem a "estreantes" — pessoas que passaram o último ano ilesas ao cadastro de inadimplentes. Esse número reforça a percepção de que a inadimplência no Brasil não é um surto, mas uma condição crônica.
A radiografia dos devedores reincidentes revela que o peso da inadimplência não se distribui de forma aleatória, mas concentra-se no coração da força produtiva brasileira. O grupo entre 30 e 39 anos — fase em que as responsabilidades familiares e o consumo costumam atingir seu ápice — responde por 26,58% do total de negativados. Na média, o reincidente tem 42,9 anos.
Há, ainda, um recorte de gênero que não pode ser ignorado: as mulheres compõem 56,42% desse grupo. Mulheres chefiam uma parcela crescente dos lares brasileiros e, assim, precisam lidar com orçamentos mais apertados e menor margem de manobra financeira diante da inflação de serviços e alimentos.
O peso da estrutura
A entrada para o cadastro de restrição ao crédito raramente é fruto de um descuido isolado. "O que observamos é a consolidação de um ciclo vicioso", destaca José César da Costa, presidente da CNDL.
Segundo o executivo, a reincidência sistemática sugere que os entraves são estruturais e persistentes.
Para esses brasileiros, romper a barreira do endividamento exige mais do que apenas o pagamento de uma parcela atrasada. Exige uma reforma na base da saúde e educação financeira que o cenário macroeconômico atual ainda custa a oferecer.